quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Poesia do cotidiano


Em meio a correria do Rio de Janeiro, o fogo cruzado entre traficantes e Governo tive que parar um pouco no Centro da Cidade, na tarde do dia de hoje. Os olhares da população estavam nas emissoras de TV. Em cada bar um amontoado de gente se reunia perplexo para ver o ultimo fato. Impossivel passar despercebido o terrorismo causado na Cidade Maravilhosa. A imagem da poesia do Cotidiano, remete pra mim a esperança de dias melhores. Prefiro o Rio de Drummond, de Vinicius, de Clara, o Rio da bossa, do samba,do calçadão, das garotas de ipanema, do Cristo e do redentor. No mar estava escrito uma cidade.Pra vocês "Coração Numeroso", de Carlos Drummond de Andrade, o ilustre pensador mineiro que passa a enternidade no olhar de Copacabana.
CORAÇÃO NUMEROSO



Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

e bondes tilintavam,

abafando o calor

que soprava no vento

e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

(a vida para mim é vontade de morrer)

faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente

na Galeria Cruzeiro quente quente

e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,

nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas

autos abertos correndo caminho do mar

voluptuosidade errante do calor

mil presentes da vida aos homens indiferentes,

que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não cabia no cais.

A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu

a cidade sou eu

sou eu a cidade

meu amor.

( Carlos Drummond de Andrade )

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